Estudo aponta possível disputa por 58 mil hectares entre Três Lagoas e Selvíria
Área de aproximadamente 580 km² está ligada à expansão do eucalipto e pode representar impacto milionário para os municípios do Bolsão
Uma discussão territorial envolvendo Três Lagoas e Selvíria pode colocar em debate cerca de 58 mil hectares de terras, o equivalente a aproximadamente 580 quilômetros quadrados. A área é alvo de um estudo produzido em Selvíria que defende uma revisão dos limites entre os dois municípios com base no curso natural do Rio Sucuriú.
O levantamento, denominado “Reavaliação dos limites geográficos do município de Selvíria a partir da revisão topográfica da Sub-bacia hidrográfica do Rio Sucuriú”, foi idealizado por Valticinez Santiago. Segundo a tese apresentada no estudo, Selvíria teria deixado de incorporar uma área que, considerando critérios geográficos e históricos analisados pelo pesquisador, deveria pertencer ao município.
A discussão ganha dimensão econômica porque parte da região questionada é ocupada atualmente por plantações de eucalipto, atividade diretamente ligada à cadeia produtiva da celulose, uma das principais forças econômicas do leste de Mato Grosso do Sul.
Estudo estima impacto milionário
De acordo com a estimativa apresentada no levantamento, Selvíria poderia deixar de movimentar aproximadamente R$ 12 milhões por mês em receitas relacionadas à silvicultura existente na área caso os limites atuais sejam mantidos.
O pesquisador sustenta que o Rio Sucuriú poderia ser utilizado como referência natural para a definição da divisa e defende uma revisão da legislação responsável pelos limites territoriais atualmente estabelecidos.
A proposta, entretanto, ainda está no campo do estudo e da reivindicação. Três Lagoas não perdeu oficialmente os 58 mil hectares, e não houve transferência territorial. Atualmente, permanecem válidos os limites municipais definidos pela legislação vigente.
O que aconteceria com Três Lagoas?
Caso a reivindicação apresentada no estudo fosse integralmente aceita e os 58 mil hectares atualmente inseridos no território de Três Lagoas fossem destinados a Selvíria, o município teria uma redução territorial de aproximadamente 580 km².
A extensão equivale a cerca de 58 milhões de metros quadrados, representando uma alteração significativa na dimensão territorial do município.
Além da área física, a eventual mudança poderia provocar impactos econômicos e administrativos, especialmente porque a região abriga atividades de silvicultura e produção de eucalipto.
Origem da discussão
A controvérsia está relacionada à própria formação histórica dos dois municípios.
O levantamento considera registros históricos que remontam ao início do século passado. Em 1914, foi criado o distrito de Véstia. No ano seguinte, surgiu o município de Três Lagoas.
Décadas depois, em 1959, a Lei Estadual nº 1.307 alterou a denominação do distrito de Véstia para Guadalupe do Alto Paraná.
Já em 1980, Selvíria foi criada a partir do desmembramento de Três Lagoas, tendo como base territorial o então distrito de Guadalupe.
Segundo o estudo, a análise de documentos históricos, mapas e coordenadas utilizadas na definição dos territórios teria identificado possíveis inconsistências na delimitação das áreas.
Debate envolve território e dinheiro
A possível revisão dos limites ultrapassa a questão geográfica. A área discutida está inserida em uma região que passou por forte expansão da silvicultura, impulsionada principalmente pela indústria de celulose.
Por isso, uma eventual mudança de aproximadamente 580 km² poderia ter reflexos sobre arrecadação, atividade econômica, administração pública e planejamento territorial dos municípios envolvidos.
Por enquanto, porém, não existe transferência oficial dos 58 mil hectares de Três Lagoas para Selvíria. O que existe é um estudo produzido em Selvíria que sustenta a necessidade de revisão das divisas.
Para que qualquer alteração ocorra, a discussão ainda precisaria passar por análises técnicas, cartográficas, históricas, jurídicas e políticas, além dos procedimentos legais previstos para mudanças de limites municipais.
A questão, portanto, está apenas começando — e coloca uma área de 58 mil hectares e milhões de reais no centro de uma possível disputa territorial entre dois municípios importantes do Bolsão sul-mato-grossense.
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