El Niño coloca safra 2026/2027 de Mato Grosso do Sul em alerta para calor, chuvas irregulares e risco de perdas

Fenômeno pode atingir intensidade forte ou muito forte entre novembro e janeiro; especialistas alertam para impactos diferentes entre as regiões do Estado

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El Niño coloca safra 2026/2027 de Mato Grosso do Sul em alerta para calor, chuvas irregulares e risco de perdas

O agronegócio de Mato Grosso do Sul entra na safra 2026/2027 sob atenção redobrada diante da possibilidade de um El Niño forte ou muito forte entre o fim deste ano e o início de 2027. A previsão da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) aponta 63% de probabilidade de o fenômeno alcançar essa intensidade entre novembro e janeiro, período considerado decisivo para o plantio e o desenvolvimento das lavouras de verão.

Para o Governo de Mato Grosso do Sul, o principal desafio não está necessariamente na quantidade total de chuva, mas na irregularidade e imprevisibilidade do clima, que podem dificultar o planejamento dos produtores.

Segundo o titular da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Artur Falcette, o Estado normalmente possui períodos de seca e chuva relativamente definidos, além de um calendário agrícola que sofre poucas alterações.

“O principal efeito do El Niño dessa intensidade é a imprevisibilidade que ele causa. Então, a gente tem em Mato Grosso do Sul, normalmente, uma estação de seca e cheia bem definida; um calendário agrícola que varia pouco”, afirmou o secretário ao Correio do Estado.

Falcette destaca que o próprio comportamento climático registrado em Mato Grosso do Sul neste ano já apresentou episódios considerados fora do padrão esperado.

“A gente teve uma onda de calor recentemente depois de uma semana de muito frio e agora chuva. Faz mais de 10 anos que não chovia na última semana de agosto no Estado. Então esse tipo de ocorrência de eventos que não estão dentro da nossa previsão climática atrapalha muito o planejamento da agricultura”, explicou.

Calor e chuvas pontuais preocupam
Entre os possíveis efeitos do fenômeno estão ondas de calor durante a primavera e o verão, além de períodos de escassez hídrica.

Uma das preocupações é justamente a distribuição das precipitações. Em vez de chuvas mais uniformes, o Estado pode registrar períodos de precipitações concentradas em determinadas localidades, deixando outras regiões com menor disponibilidade de água.

“A gente tem uma alta probabilidade de grandes ondas de calor durante a primavera e o verão e a possibilidade de escassez hídrica, uma vez que a tendência, uma das coisas que esse fenômeno causa, são as chuvas esparsas”, explicou Falcette.

Aprosoja-MS faz ponderação
Apesar do alerta, a Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja-MS) aponta que a simples presença de El Niño ou La Niña não permite prever, sozinha, como será o desempenho das lavouras.

Segundo o coordenador técnico da entidade, Gabriel Balta, a análise das últimas 15 safras de soja mostra que a relação entre o índice oceânico do Pacífico e a produtividade estadual é relativamente fraca.

Isso ocorre porque Mato Grosso do Sul apresenta diferenças climáticas e geográficas importantes. Assim, uma região pode receber um padrão de chuvas favorável enquanto outra enfrenta excesso ou falta de precipitação.

Um exemplo citado pelo especialista envolve as safras 2020/2021 e 2021/2022. Embora as duas tenham sido influenciadas por episódios de La Niña de intensidade semelhante, os resultados foram diferentes, principalmente por causa da distribuição das chuvas entre dezembro e fevereiro.

“A principal conclusão é que o Enos [El Niño-Oscilação Sul] deve ser interpretado como um sinal de tendência climática, e não como uma previsão direta da produtividade”, afirmou Balta.

Por isso, o acompanhamento das condições climáticas de cada região deve ter papel fundamental nas decisões dos produtores, incluindo época de semeadura, escolha de cultivares e planejamento da segunda safra.

Municípios da região sul, como os da área de Dourados, podem apresentar comportamento diferente de localidades do norte e nordeste do Estado, como Chapadão do Sul e Costa Rica.

Milho aparece entre as culturas mais vulneráveis
Embora soja e milho estejam entre os principais produtos agrícolas de Mato Grosso do Sul, o milho aparece como uma das culturas que mais podem sentir os efeitos de um El Niño forte.

Um relatório do Itaú estima que o fenômeno possa contribuir para uma retração de 1,3% no PIB da agropecuária em 2027, considerando uma possível queda de 17% na produção de milho.

Segundo a economista Julia Gottlieb, do Itaú Unibanco, o milho historicamente apresenta maior vulnerabilidade durante episódios do fenômeno.

Ela cita como referência perdas registradas em períodos recentes de El Niño forte: 21% entre 2015 e 2016 e 13% entre 2023 e 2024.

A preocupação também está ligada ao calendário agrícola. Uma eventual irregularidade nas chuvas pode atrasar o plantio da soja e, consequentemente, diminuir a janela considerada ideal para a segunda safra de milho.

Mercado já reage às incertezas
Os efeitos das expectativas climáticas também aparecem no mercado de commodities. A possibilidade de problemas na produção pode gerar o chamado prêmio de risco climático, antecipando movimentos nos preços futuros.

O café arábica acumula alta de 35% nos contratos, enquanto o cacau registra valorização de 40% no mercado futuro desde fevereiro. No açúcar, a alta em Nova York chegou a 22% em agosto.

Para Mato Grosso do Sul, os principais reflexos estão relacionados à soja e ao milho.

Na Bolsa de Chicago (CBOT), os contratos futuros do milho acumularam alta próxima de 17% em agosto, impulsionados também pelas incertezas relacionadas à produtividade das lavouras norte-americanas.

Na B3, contratos mais longos do milho, como os de março de 2027, chegaram a superar R$ 82 por saca.

A soja também ganhou força no mercado internacional. O contrato de novembro fechou acima de US$ 13 por bushel, influenciado pela demanda global, pelas condições climáticas no Hemisfério Norte e pelas expectativas em relação à safra 2026/2027.

No mercado brasileiro, a valorização em Chicago contribuiu para preços maiores. Segundo o consultor Vlamir Brandalizze, da Brandalizze Consulting, a soja nos portos chegou a variar entre R$ 162 e R$ 164 por saca, entre os maiores valores do ano.

Para produtores que precisarão de recursos financeiros entre março e maio, o cenário pode representar uma oportunidade de antecipar parte da comercialização.

A soja da nova safra também já ultrapassou o patamar de R$ 150 por saca, favorecendo negociações antecipadas.

Efeito pode chegar ao consumidor
As consequências de eventuais problemas climáticos não devem ficar restritas ao campo.

Segundo avaliação da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), produtos mais perecíveis, como hortaliças, frutas, arroz e feijão, tendem a responder mais rapidamente a possíveis perdas de oferta.

Produtos de origem animal, como leite, ovos e carne, também podem sofrer efeitos indiretos caso alterações climáticas prejudiquem pastagens ou aumentem os custos de alimentação dos animais.

Produtores chegam à nova safra pressionados
Apesar da perspectiva de preços mais favoráveis para algumas commodities, o secretário Artur Falcette ressalta que os produtores sul-mato-grossenses chegam à safra 2026/2027 ainda enfrentando dificuldades financeiras.

“O produtor do Estado já vem com uma situação de endividamento de duas safras ruins, apesar de a gente ter tido agora uma safrinha de milho muito boa, mas duas safras de soja ruins, que são muito importantes para o rural”, afirmou.

Até o momento, segundo o secretário, não houve sinalização concreta do Governo Federal sobre mecanismos específicos de apoio aos produtores que eventualmente sejam prejudicados pelos efeitos do El Niño.

Diante do cenário, o acompanhamento climático regionalizado deverá ser uma das principais ferramentas para reduzir riscos na nova safra. Mais do que apenas saber se haverá El Niño, produtores precisarão observar quando, onde e como a chuva e as temperaturas irão se comportar em cada região de Mato Grosso do Sul.

 
 

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